#124 Bandeira
Não sou barqueiro de vela,
Mas sou um bom remador:
(…)
Remando contra a corrente,
Ligeiro como a favor,
Contra a neblina enganosa,
Contra o vento zumbidor!
Manuel Bandeira.
#122 Da Margarina
Você precisa.
Precisa. Entender. Vivemos na melhor cidade.
Na melhor rua, na mais linda praça. Precisa aprender. É assim.
E vai ficar tudo bem. Ajeito a sua camisa, abotoô seu sorriso e bem.
Meu bem, é assim.
#121 In Theory
A impossibilidade. Então o mundo é um ponto, e como vírgulas sonhamos um parágrafo. Único, satisfeito e solitário. Da fantasia, o que resta são esconderijos e presentes que nunca abrimos. E se você pensar com muita força, explode. Voltemos ao início. Rezo para o tempo que é um círculo, ele volta? Tudo sim.
“Un-learn everything you know, and let him teach you”
#120 Pacaya

Comecei como todo mundo, em um passo assustado. Vertigem do vale, da constelação. E agora sonho com Tikal, Los Roques, Pacaya. Suspiro uma saudade que é a brisa do Pacífico. Céus mais coloridos, corações abertos em forma de oceano. E o meu relógio é o sol.
#118 Orange

Comprei bananas prata, maçãs gala e insisti nas assustadoras cenouras baby. Que apesar de 100% naturais, orgânicas e sem agrotóxicos, têm o formato absurdamente perfeito e inatural para uma cenoura. De qualquer forma, as levei para casa. Também não acredito em tantas outras coisas e acabo comprando-as. Discos, livros, promessas. Por sorte, sempre se pode descarta-las e esperar que alguém as recicle. Delegar afeto. Larguei-as na geladeira, solitárias em sua laranjidão. Por um momento, tive pena de sua timidez naquele ambiente frio e pouco amigável. Afinal, eram apenas bebês cenouras. Cerrei-as. E por muito tempo fiquei a pensar naquilo, o que seria senão amor? Uma compaixão imensa talvez. Chega-se a amar alguma coisa que não fala, não emite sorrisos, não conhece poesia? Certamente. E encerrando a questão, consumi toda uma infância em uma salada perfeitamente decorada. Com cenouras baby, naturalmente.
#117 Resposta pra ninguém
Tem uma porção de alegrias pincelando o meu calendário. Mas tem coisas que ficam estampadas num sorriso, embora escondidas no dia a dia desse silêncio que se faz entre a gente. Meu querido, está tudo bem comigo e acho que você sabe. Um bem tão bom que eu sinto medo, porque a primavera já chega, o inverno vem apressado. Mas se te falo de cores, de sol e coisas que brilham é porque estou apaixonada pelo mundo. Aprendi a perdoá-lo. Como as crianças, as cartas que se escreve e não se envia. Passei a acreditar nos gestos, nas delicadezas. Eu ainda quero uma casa, uma rede e quem sabe uma árvore no fundo. Mas tem esse mar imenso que me chama. Canta no meu ouvido quando eu durmo, sussura nomes pela manhã e grita em formas de raios de sol. E enquanto isso, fico a me repetir: temos tempo. Teremos. Guardo minhas recomendações para quando nos encontrarmos de novo e apagarmos essa saudade estranha. Antes do tempo nos alcançar, te deixo um beijo. Cuide bem de você.

