Tuesday, January 10
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#205 Summer Sonettino


posted 3 weeks ago



Seduced and betrayed by words.
The world is a hopeless mess.
My heart is bruised and hurt.
My soul can’t bear such treason.
My body couldn’t care less.

My thoughts won’t go into verse,
my verse refuses to rhyme,
my rhymes are adverse to reason,
and reason’s deserted my mind.
Lust is in full season.

My poetry is on the ropes.
My life isn’t any better.
There is no good. No hope.
Hmm. Great beach weather.

- Paulo Henriques Britto 

Sunday, December 11
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#204 Burning Bright


posted 1 month ago

Give the people contests they win by remembering the words to more popular songs or the names of state capitals or how much corn Iowa grew last year. Cram them full of noncombustible data, chock them so damned full of ‘facts’ they feel stuffed, but absolutely thinking, they’ll get a sense of motion without moving. And they’ll be happy, because facts of that sort don’t change. Don’t give them any slippery stuff like philosophy or sociology to tie things up with. That way lies melancholy.

“Those who don’t build must burn.” 

Sunday, October 02
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#203 Medianeras


posted 4 months ago


São oito da noite e ficou tarde para jantar. Claro que estamos cansados, trabalhamos muito além das nossas quarenta horas semanais, como sempre. Ficarei com o meu chá quente lendo todos os artigos que guardei para o final de semana. Você também passará a noite em frente ao computador, escrevendo aquilo que não consegue falar sem um copo de cerveja na mão ou uma tela dividindo você e o seu interlocutor. É mais fácil assim. Logo seremos aquelas pessoas que se dão feliz aniversário virtualmente, tentando lembrar entre as quarenta e três amizades em comum, qual foi a que nos apresentou. Os silêncios vão ser maiores e nem teremos a novela como assunto em comum. Estaremos sempre ausentes ou ocupados um para o outro, e nem nos importaremos com isso. Sempre haverá uma nova viagem, um novo emprego, alguém novo ligeiramente interessante. O trânsito da cidade vai nos separar.  Vamos pular de relacionamento em relacionamento, perguntando-nos se restará alguém para quem voltar, um lugar sem filas para onde ir. Talvez eu te encontre em alguma foto antiga e então, só então, sinta falta de quando tínhamos um horizonte inteiro disponível para nós. Rotas impossíveis, festas irresistíveis, manhãs sem despertador. E nunca era tarde para nada.

Saturday, October 01
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#202 Por el camino


posted 4 months ago

“Já estou aqui há quatro meses e, ontem à noite, ao fazer um balanço mental desse período, percebi a familiaridade incrível com que me movo neste mundo. É aí que está o perigo. É agora que devo vigiar minha visão, a forma de me colocar diante de coisas que venho conhecendo cada vez melhor; é agora que devo impedir que os conceitos escamoteiem minhas vivências. Seria terrível (não me aconteceu, por sorte) eu ter um dia que passar às pressas diante de Notre-Dame e só dar aquela olhada distraída que se dedica a bancos ou a casas para alugar. Quero que a maravilha da primeira vez seja sempre a recompensa para o meu olhar. Posso me dar ao luxo de passar perto do Museu Cluny e pensar comigo: ‘Vou entrar outro dia.’ Mas entrar ali tem de continuar sendo uma coisa séria, última, o motivo verdadeiro de minha presença em Paris. Nós rimos dos turistas, mas juro que eu quero ser turista em Paris até o fim, ser o homem que anota na agenda: quinta-feira, ir ver o São Sebastião, de Mantegna… É horrível perceber a cada minuto como as faculdades intelectuais transbordam sobre as intuições puras, tentando esquematizar o mundo… “

Júlio Cortázar em correspondência com Eduardo de Jonquières. 

Sunday, September 18
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#201 Heaven can’t wait


posted 4 months ago


She’s sliding down to the depth of the world.
She’s hiding on a battleship of baggage and bones.
And they’re trying to drive that escalator into the ground. 

Tuesday, August 30
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#200 Andares


posted 5 months ago



Saudade - diz minha vizinha do décimo andar. Acabava de se aposentar e acho que se acostumara a dizer saudade pra tudo. Saudade, era o que dizia para seus alunos quandos os encontrava na rua. Saudade era o que dizia para os pais dos seus alunos, para as suas ex-colegas, ou quando lembrava da textura da maçaneta da porta da sua sala de aula. Suspirava saudade até para as plantas que já não cresciam mais no seu jardim improvisado, que morria de tanto ser aguado. Comprava pães a mais, inventava idas a costureira, não conseguia completar cruzadinhas porém. Cheia de saudades, já nao prestava atenção em quantas vezes regava suas plantas, perdida no calendário, esvaziava seus dias. Tornara-se seu cumprimento, e pela força do hábito, foi assim que me saudou quando abri a porta do elevador e lhe sorri com meus vinte e poucos anos e mochila nas costas. O que diria se não vivesse num pais de língua portuguesa e não tivesse esta palavra para expressar sua existência? Nostalgia, tristeza, melancolia? Solidão.

Sunday, August 21
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#199 The Museum of Innocence


posted 5 months ago

“Any intelligent person knows that life is a beautiful thing and that the purpose of life is to be happy. But it seems only idiots are ever happy. How can we explain this?”

Tudo o que é sólido desmancha no ar. Conto nos dedos as vezes que revelei com palavras, muito menos gestos, apenas guardei. Escondido em algum canto da memória, junto com invenções que não ouso repartir. Não sei o que é. Doce, amargo, amarelo. São borboletas no estômago, pássaros na mão. Nunca saberei. Te gestarei até que de ti me enjoe, até a próxima parada. Porque eu também não entendo.

Thursday, August 18
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#198 Me, you and everyone we know


posted 5 months ago



Há quem entre no mar apenas com a ponta dos pés e depois retorne a areia. E há quem mergulhe fundo e nade em direção a uma pequenina ilha no horizonte. Eu deixo a água chegar na cintura e fico boiando de barriga pra cima apontando para o sol. Às vezes cantarolo, outras desvio das ondas. Mas me deixo ficar no meio do caminho. 

Na minha lista de coisas-a-fazer estão nessa ordem: marcar oftamologista, dermatologista, ir a costureira, voltar a escrever, exercitar-me, ler mais um dostoiésvki. E como não consegui tirar a escrita das coisas urgentes e necessárias, aqui estou, contando do meu comportamento na praia.

E isso me faz lembrar da canga colorida que deixei naquela varanda. Do fone de ouvido que perdi, do bilhete de ônibus que deixei passar. No meu museu de coisas esquecidas, também ficam todas as palavras que esqueci de te dizer no jantar de ontem. Por isso continuo a imprimir aqui, em cores monocromáticas, esperando que um dia te toque. Remember it well

Monday, June 13
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#197 Norwegian Wood


posted 7 months ago


“Wake up,” it says. “I’m still here. Wake up and think about it. Think about way I’m still here.” The kicking never hurts me. There’s no pain at all. Just a hollow sound that echoes with each kick. And even that is bound to fade one day.

Monday, April 18
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#196 Run (Away)


posted 9 months ago


Minha mesa, minha caneca de café, meu caminho a pé. Minha lista de pendências garranchadas em um caderno cheio de marcas de copo. Secretamente desejando manchar todas as folhas e não ter mais onde escrever. Meus montes de fios de gadgets, eletricidade e choque. Ainda assim, meus.

Sentirei falta das janelas, mas esquecerei seus contornos. Talvez lembre da música que escutava no caminho, do gosto do sorvete após o almoço, debaixo do sol, em cima do asfalto. Das noite de barriga vazia, esperando o táxi. Sentirei falta de sorrir pra você.

Meus amigos mudam sempre de emprego, outros ficam décadas, outros decidem ficar em algum país distante. Eu brinco de ver horários e itinerários de viagens aleatórias em fins de semana de verão. É sempre verão em alguma cidade. Te encontro no horizonte.