Wednesday, July 02
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#229 Cavalo


posted 3 weeks ago

"Ter é tardar."


Sunday, May 11
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#228 May


posted 2 months ago

Ela anunciara que iria. Cruzaria dois continentes e o veria de novo. Não mais por amor ou por esperança, mas por curiosidade, creio. No domingo seguinte, desistira da ideia. Após quinze anos casada com outro homem, não podia voltar atrás. Mesmo que este fosse um parasita, como o primeiro. Mesmo que não suportasse seu ronco, seu pigarro, seus olhos de sapo. Nas cartas, perguntara se ele a veria de novo. Não era amor ou esperança, era despeito. Queria ainda fazer planos, ter futuro. Aos cinquenta e quatro anos, queria planejar uma juventude futura. Tomariam café ou um chá juntos. Um chá de jasmim. Ele parara de beber, andava de bicicleta, trabalhava na igreja. Mas ela temia vê-lo. Descobri-lo velho, depois de vinte e cinco anos, seria dar-se conta da sua própria decrepitude. Ela gastava o que não podia em cremes, pós compactos, milagres dentro de potes. Temia seu olhar. O julgamento sob suas rugas, sua flacidez. Ele ainda a acharia muito bonita. À família, anunciou que o encontraria, que talvez voltassem a ser amigos. Às filhas, confessou que não suportaria as críticas daquela pequena comunidade. Dizia as rezas, mas não se decidia. Veria-o? Rezara tanto e agora não conseguia tirar aquele pequeno deus dentro de si. O deus que construira, que a sustentara e agora a prendia. Não o veria. Voltaria com a mala cheia de artigos baratos, o estômago machucado, os pés cansados. Um pouco mais presa dentro de si. Morria um pouco mais, mas não matava o deus que a preenchia.

Saturday, May 10
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#227 Como Leite


posted 2 months ago

Era tão limpo. Os sapatos que pareciam recém-saídos de uma loja, o agasalho Adidas, a camiseta com as marcas das dobras. Nunca vira alguém tão limpo no metrô. Era albino. A pele alva, os cabelos brancos, as mãos tão limpas. Tudo cheirava branco. Queria abraçá-lo porque o sabia completamente só, purificava-se. Passava o tempo limpando as roupas com esmero durante o dia, temendo o sol. Seus luxos eram os produtos de limpeza. Decorava os componentes químicos, as instruções de uso e precauções, como poemas de Neruda. Tinham medo de tocá-lo. Não sei se por medo do contágio da doença ou de contaminá-lo, tão imaculado era. Podia ter 18 ou 60 anos. Podia ter muitas amantes ou ser completamente virgem. Podia não ser desse mundo. Acreditaria em qualquer coisa que dissesse. Porque era tão puro que não saberia fingir verdades. O metrô esvaziava, as luzes desligavam, era tão tarde. Queria segui-lo, conhecer sua casa, apenas continuar olhando. Queria que fosse o papel em branco que nunca soube preencher. Seria suas tintas. A sujar.

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#226 La Grande Bellezza


posted 2 months ago

Air In G - Bach by Bach on Grooveshark

"Só existe a beleza se existir interlocutor. A  beleza da lago é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso compartilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. (…) Ainda que as palavras sejam débeis. As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo, Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. A esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós. Dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente."
- valter hugo mãe

Sunday, March 09
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#225 Walk the Earth


posted 4 months ago

"Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. Às vezes não é tão fácil saber em qual dos dois estamos,"

Sunday, February 23
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#224 Goldfish in a Bowl


posted 5 months ago

“We don’t recognize each other because other people have become our permanent mirrors. If we actually realized this, if we were able to become aware of the fact that we are only ever looking at ourselves in the other person, that we are alone in the wilderness, we would go crazy.” 

Saturday, February 15
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#223 Him


posted 5 months ago

"Maybe that would have filled this tiny little hole in my heart, but probably not… and sometimes I think I have felt everything I’m ever gonna feel, and from here on out I’m not gonna feel anything new… just… lesser versions of what I’ve already felt.”

Wednesday, January 22
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#222 Sea Wolf


posted 6 months ago

"…we want to live and move, though we have no reason to, because it happens that it is the nature of life to live and move, to want to live and move. If it were not for this, life would be dead. It is because of this life that is in you that you dream of your immortality.”

I’ve decided to live.

Wednesday, November 27
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#221 No estômago


posted 7 months ago

“De repente me pergunto por que tenho de contar isto, mas se a gente  começa a se perguntar por que faz tudo o que faz, se a gente se pergunta  apenas por que aceita um convite para jantar (agora, passa uma pomba, e  parece que um pardal) ou por que quando alguém nos contou um bom  caso, em seguida surge como uma cócega no estômago e não dá para  ficar tranquilo até entrar no escritório aí do lado e contar adiante a mesma história; só então a gente se sente bem, contente, e pode voltar ao trabalho. Que eu saiba ninguém explicou isso, portanto, o melhor é deixar os pudores de lado e contar, porque afinal ninguém se envergonha de respirar ou calçar sapatos; são coisas que a gente faz e quando acontece alguma coisa estranha, quando encontramos dentro do sapato uma aranha ou ao respirar nos sentimos como um vidro quebrado, então é preciso contar o que aconteceu, contar aos rapazes do escritório ou ao médico. Ai, doutor, cada vez que respiro…Sempre contar, sempre livrar-se dessa cócega incômoda no estômago.

 

Cortázar em 1959, mas podia ser 2013.

Saturday, August 03
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#220 Sonhos


posted 11 months ago

"Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse — "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria — "mas essa história é mesmo muito engraçada!".

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse — e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse — “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago — mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina”.

E quando todos me perguntassem — “mas de onde é que você tirou essa história?” — eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história…”.

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.”

- Rubem Braga