Friday, October 15
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#188 Quinze


posted 1 year ago

Era domingo. E o céu não se decidia se chovia ou se apenas cobria o dia de nuvens. Usei o mapa da cidade para me sentar nas escadas. O prédio era bonito, mas o chão estava molhado e sujo. E eu não pretendia conhecer as ruas daquele mapa, aquela cidade me dava enjôo. O mapa poderia ficar ali, todas as coisas poderiam ficar suspensas junto às nuvens, como tinham ficado há tantos anos atrás. As pessoas voltavam da missa, em pares e famílias, cenas de comercial. Eu me sentia num filme, mas quando se é o personagem principal, a emoção nunca é a mesma. Na espera, as cores somem por muitos instantes. A realidade é desbotada. Existem apenas os outros que passam como fantasmas e não te olham. Ou sou eu a que nunca está aqui. Quando acho que é hora, aperto a campanha uma última vez, quase esperando que ninguém atenda. Quase querendo que a voz permaneça na garganta, que a porta se mantenha fechada, que eu me mantenha aqui dentro. Como as coisas que a gente vai amontoando na mesa. Ingressos de cinema, livros de dez reais, cadernos que se compra pela capa. E tem dias que a gente se cansa, e vai jogando tudo na gaveta. Até a gaveta não respirar mais, e não deixar espaço pra mais nada. Já era hora. A voz atendeu, a aporta abriu, e eu saí.