/ Bobagens
#199 The Museum of Innocence
“Any intelligent person knows that life is a beautiful thing and that the purpose of life is to be happy. But it seems only idiots are ever happy. How can we explain this?”
Tudo o que é sólido desmancha no ar. Conto nos dedos as vezes que revelei com palavras, muito menos gestos, apenas guardei. Escondido em algum canto da memória, junto com invenções que não ouso repartir. Não sei o que é. Doce, amargo, amarelo. São borboletas no estômago, pássaros na mão. Nunca saberei. Te gestarei até que de ti me enjoe, até a próxima parada. Porque eu também não entendo.
#198 Me, you and everyone we know

Há quem entre no mar apenas com a ponta dos pés e depois retorne a areia. E há quem mergulhe fundo e nade em direção a uma pequenina ilha no horizonte. Eu deixo a água chegar na cintura e fico boiando de barriga pra cima apontando para o sol. Às vezes cantarolo, outras desvio das ondas. Mas me deixo ficar no meio do caminho.
Na minha lista de coisas-a-fazer estão nessa ordem: marcar oftamologista, dermatologista, ir a costureira, voltar a escrever, exercitar-me, ler mais um dostoiésvki. E como não consegui tirar a escrita das coisas urgentes e necessárias, aqui estou, contando do meu comportamento na praia.
E isso me faz lembrar da canga colorida que deixei naquela varanda. Do fone de ouvido que perdi, do bilhete de ônibus que deixei passar. No meu museu de coisas esquecidas, também ficam todas as palavras que esqueci de te dizer no jantar de ontem. Por isso continuo a imprimir aqui, em cores monocromáticas, esperando que um dia te toque. Remember it well.
#194 Bom dia
- Bom dia - eu digo para as janelas.
Elas não respondem.
E o dia começa.
#189 Vexillographica
Os passos soam fundos num chão ausente de flores da primavera.
Não estão nos galhos e os meses já se foram.
Onde estão suas cores se não na terra.
Junto com os cabelos que eu não cortei, com o espelho que nunca mudou.
Se não está debaixo dos meus pés, pra onde foi a estação.
Se eu queria verão.
Ou não, só queria ver passar o tempo, andando em mim.
Onde está o que eu ia repetir.
O céu é pálido, as mãos são indecisas.
É preciso correr.
#188 Quinze
Era domingo. E o céu não se decidia se chovia ou se apenas cobria o dia de nuvens. Usei o mapa da cidade para me sentar nas escadas. O prédio era bonito, mas o chão estava molhado e sujo. E eu não pretendia conhecer as ruas daquele mapa, aquela cidade me dava enjôo. O mapa poderia ficar ali, todas as coisas poderiam ficar suspensas junto às nuvens, como tinham ficado há tantos anos atrás. As pessoas voltavam da missa, em pares e famílias, cenas de comercial. Eu me sentia num filme, mas quando se é o personagem principal, a emoção nunca é a mesma. Na espera, as cores somem por muitos instantes. A realidade é desbotada. Existem apenas os outros que passam como fantasmas e não te olham. Ou sou eu a que nunca está aqui. Quando acho que é hora, aperto a campanha uma última vez, quase esperando que ninguém atenda. Quase querendo que a voz permaneça na garganta, que a porta se mantenha fechada, que eu me mantenha aqui dentro. Como as coisas que a gente vai amontoando na mesa. Ingressos de cinema, livros de dez reais, cadernos que se compra pela capa. E tem dias que a gente se cansa, e vai jogando tudo na gaveta. Até a gaveta não respirar mais, e não deixar espaço pra mais nada. Já era hora. A voz atendeu, a aporta abriu, e eu saí.
#176 Conceptual Incomprensible
Gente que atravessa o mundo, que escreve cartas, que planta poesia. Gente que inspira com uma taça de champagne. Borbulhas de felicidade. Gente que quer o bem e não se importa em soar piegas, que olha pro céu pra ver se lá ele continua. Bobagens que se compartilha. Gente que te faz dançar, congelar. Gente que se perde, mas que eu busco, como dias de sol.
Gente que é.
#173 My Imaginarium
Quero tomar sorvete no café da manhã, com uma coca-cola talvez. Uma vaca preta junto ao sol. Me levar num guarda-chuva, sem gravidade. Uma cobertura com nuvens de algodão, recheio de arco-íris, andares de girassol. Córrego por você. Rio muito alto, quase morro, num vale. E renasço milhões de vezes. Como cachoeira.
#163 Promises
Um recado. Não fui capaz de deixar. Nem meu perfume ou um número para o qual ligar. Pulei o muro sem declarações ou poesia. Só um nome. E fiquei repetindo sua voz, as palavras voando. No dicionário faltaram significados. Te esquecerei, apagarei sua pele e os olhos. Mas um gesto ainda me assalta. Viverei de rascunhos jogados fora.
#158 Um Rio
Poucos navios. Ele tem. E poucas chances, ondas venceriam facilmente. Quase não faz sombra, passam por cima, como se nada fosse. Penso em dizer tudo isso e me acovardo. Gosto da pureza que não se nomeia. Da sua brancura, como território impossível, com rastro de vertigem. Não desperdicemos mais o tempo.
