/ Literatura
#204 Burning Bright
“Give the people contests they win by remembering the words to more popular songs or the names of state capitals or how much corn Iowa grew last year. Cram them full of noncombustible data, chock them so damned full of ‘facts’ they feel stuffed, but absolutely thinking, they’ll get a sense of motion without moving. And they’ll be happy, because facts of that sort don’t change. Don’t give them any slippery stuff like philosophy or sociology to tie things up with. That way lies melancholy.”
“Those who don’t build must burn.”
#202 Por el camino
“Já estou aqui há quatro meses e, ontem à noite, ao fazer um balanço mental desse período, percebi a familiaridade incrível com que me movo neste mundo. É aí que está o perigo. É agora que devo vigiar minha visão, a forma de me colocar diante de coisas que venho conhecendo cada vez melhor; é agora que devo impedir que os conceitos escamoteiem minhas vivências. Seria terrível (não me aconteceu, por sorte) eu ter um dia que passar às pressas diante de Notre-Dame e só dar aquela olhada distraída que se dedica a bancos ou a casas para alugar. Quero que a maravilha da primeira vez seja sempre a recompensa para o meu olhar. Posso me dar ao luxo de passar perto do Museu Cluny e pensar comigo: ‘Vou entrar outro dia.’ Mas entrar ali tem de continuar sendo uma coisa séria, última, o motivo verdadeiro de minha presença em Paris. Nós rimos dos turistas, mas juro que eu quero ser turista em Paris até o fim, ser o homem que anota na agenda: quinta-feira, ir ver o São Sebastião, de Mantegna… É horrível perceber a cada minuto como as faculdades intelectuais transbordam sobre as intuições puras, tentando esquematizar o mundo… “
Júlio Cortázar em correspondência com Eduardo de Jonquières.
#200 Andares
Saudade - diz minha vizinha do décimo andar. Acabava de se aposentar e acho que se acostumara a dizer saudade pra tudo. Saudade, era o que dizia para seus alunos quandos os encontrava na rua. Saudade era o que dizia para os pais dos seus alunos, para as suas ex-colegas, ou quando lembrava da textura da maçaneta da porta da sua sala de aula. Suspirava saudade até para as plantas que já não cresciam mais no seu jardim improvisado, que morria de tanto ser aguado. Comprava pães a mais, inventava idas a costureira, não conseguia completar cruzadinhas porém. Cheia de saudades, já nao prestava atenção em quantas vezes regava suas plantas, perdida no calendário, esvaziava seus dias. Tornara-se seu cumprimento, e pela força do hábito, foi assim que me saudou quando abri a porta do elevador e lhe sorri com meus vinte e poucos anos e mochila nas costas. O que diria se não vivesse num pais de língua portuguesa e não tivesse esta palavra para expressar sua existência? Nostalgia, tristeza, melancolia? Solidão.
#199 The Museum of Innocence
“Any intelligent person knows that life is a beautiful thing and that the purpose of life is to be happy. But it seems only idiots are ever happy. How can we explain this?”
Tudo o que é sólido desmancha no ar. Conto nos dedos as vezes que revelei com palavras, muito menos gestos, apenas guardei. Escondido em algum canto da memória, junto com invenções que não ouso repartir. Não sei o que é. Doce, amargo, amarelo. São borboletas no estômago, pássaros na mão. Nunca saberei. Te gestarei até que de ti me enjoe, até a próxima parada. Porque eu também não entendo.
#197 Norwegian Wood
“Wake up,” it says. “I’m still here. Wake up and think about it. Think about way I’m still here.” The kicking never hurts me. There’s no pain at all. Just a hollow sound that echoes with each kick. And even that is bound to fade one day.
#186 Germinal

”O problema, porém, é que as receitas infalíveis são, para a liberdade, para a responsabilidade e a liberdade responsável, o que a água é para o fogo. […] E não há coisa alguma como uma liberdade sem ansiedade, embora, sendo este o sonho perene de tantos nós […] No todo, não é certo de modo algum o que a maior parte de nós teria preferido (se lhe fosse a escolha concedida): a ansiedade da liberdade ou o conforto da tal certeza que só a falta de liberdade pode oferecer? A questão, porém, é que a escolha não nos foi concedida, e é improvável que no-lo seja. A liberdade é o nosso destino: uma sorte de que não se pode desejar o afastamento e que não se vai embora por mais intensamente que possamos desviar dela os nossos olhos. Vivemos num mundo diversificado e polifônico, onde toda tentativa de inserir o consenso se mostra somente uma continuação do desacordo por outros meios.”
- Bauman.
#175 Momentum

“Há momentos assim na vida: descobre-se inesperadamente que a perfeição existe, que é também ela uma pequena esfera que viaja no tempo, vazia, transparente, luminosa, e que às vezes (raras vezes) vem na nossa direcção, rodeia-nos por breves instantes e continua para outras paragens e outras gentes.”
Saramago In Manual de Pintura e Caligrafia, Ed. Caminho, 6.ª ed., p. 291
#104 Prenez Soin de Vous
“a atividade literária, no que ela tem de específico como disciplina no espírito, não pode ter outra justificação a não ser iluminar certas coisas para si próprio ao mesmo tempo que elas se tornam comunicáveis para outrem, e que um dos objetivos mais elevados […] é restituir por meio das palavras certos estados intensos, concretamente experimentados e tornados significativos para serem postos assim em palavras” (Michel Leiris)
