/ Pessoas
#203 Medianeras
São oito da noite e ficou tarde para jantar. Claro que estamos cansados, trabalhamos muito além das nossas quarenta horas semanais, como sempre. Ficarei com o meu chá quente lendo todos os artigos que guardei para o final de semana. Você também passará a noite em frente ao computador, escrevendo aquilo que não consegue falar sem um copo de cerveja na mão ou uma tela dividindo você e o seu interlocutor. É mais fácil assim. Logo seremos aquelas pessoas que se dão feliz aniversário virtualmente, tentando lembrar entre as quarenta e três amizades em comum, qual foi a que nos apresentou. Os silêncios vão ser maiores e nem teremos a novela como assunto em comum. Estaremos sempre ausentes ou ocupados um para o outro, e nem nos importaremos com isso. Sempre haverá uma nova viagem, um novo emprego, alguém novo ligeiramente interessante. O trânsito da cidade vai nos separar. Vamos pular de relacionamento em relacionamento, perguntando-nos se restará alguém para quem voltar, um lugar sem filas para onde ir. Talvez eu te encontre em alguma foto antiga e então, só então, sinta falta de quando tínhamos um horizonte inteiro disponível para nós. Rotas impossíveis, festas irresistíveis, manhãs sem despertador. E nunca era tarde para nada.
#190 I find it hard to say
Eu espero que você vá, conquiste o mundo as pessoas os lugares. Eu espero que você continue vendo poesia nas formigas nos asfaltos nas cores do céu. No dia que acorda sem sentido claro. Eu espero que você continue sempre desperto, enquanto outros dormem. Eu espero que a sua história se complete. Que você volte. Choose well.
Eu espero.
#186 Germinal

”O problema, porém, é que as receitas infalíveis são, para a liberdade, para a responsabilidade e a liberdade responsável, o que a água é para o fogo. […] E não há coisa alguma como uma liberdade sem ansiedade, embora, sendo este o sonho perene de tantos nós […] No todo, não é certo de modo algum o que a maior parte de nós teria preferido (se lhe fosse a escolha concedida): a ansiedade da liberdade ou o conforto da tal certeza que só a falta de liberdade pode oferecer? A questão, porém, é que a escolha não nos foi concedida, e é improvável que no-lo seja. A liberdade é o nosso destino: uma sorte de que não se pode desejar o afastamento e que não se vai embora por mais intensamente que possamos desviar dela os nossos olhos. Vivemos num mundo diversificado e polifônico, onde toda tentativa de inserir o consenso se mostra somente uma continuação do desacordo por outros meios.”
- Bauman.
#178 Before the Sunset
Antes que o dia acabe, rabisque mais uma promessa. Antes que a minha memória se prenda, perca-se e apague o seu rosto. Eu vou te deixar num rastro. Vou deixar que chova em mim e faça sol e eu lembre pra te contar depois. Pra compartilhar na segunda pessoa, pra conjugar no plural. Será que as gotas esgotam em sessenta dias? Será que os dias se enchem de você? Antes que o sol escureça, eu te escrevo. Antes que o sol se apague, eu te sonho. With love.
#177 O Outro, O Um.
Eu lembro das primeiras palavras, de quando a gente não tinha olho pro outro, só o ouvido, que gostava das mesmas notas. Eu lembro de quando a gente aprendeu a escrever pro outro, copiando letras de formas desconhecidas. A gente era tímido da vida. O outro entendia o um, o pouco que a gente tinha, escondia mostrando. A gente foi crescendo querendo ser bom, e fomos bons? A gente podia ser tanta coisa que tinha medo de escolher. E se do outro lado fosse melhor? Eu lembro de quando a gente se afastou, o outro não brigou, era silêncio só. A gente sempre entendeu silêncio, era uma língua que a gente traduzia pra dentro. E esperava. A nossa pressa era com a gente, do outro se tinha certeza. Eu fui embora e te escrevia. Os anos, os dias, as formigas. O outro perguntava como era pensar em outra língua, numa ilha à deriva. Como era? Eu era outra. A volta era sempre diferente, a gente não falava muito. Ouvia música, falava poesia, e era noite. Eu lembro que esquecia. Mas o outro lembrava. Como se missão fosse, dever de casa. Tinha um jeito de relembrar sorrisos e costurar palavras, uns nós nos outros. Como se fosse fosse durar pra sempre, o vento. Um jeito de me soprar na direção correta.
Amovocê. Apesar de tudo, e por isso mesmo.
=)
#176 Conceptual Incomprensible
Gente que atravessa o mundo, que escreve cartas, que planta poesia. Gente que inspira com uma taça de champagne. Borbulhas de felicidade. Gente que quer o bem e não se importa em soar piegas, que olha pro céu pra ver se lá ele continua. Bobagens que se compartilha. Gente que te faz dançar, congelar. Gente que se perde, mas que eu busco, como dias de sol.
Gente que é.
#163 Promises
Um recado. Não fui capaz de deixar. Nem meu perfume ou um número para o qual ligar. Pulei o muro sem declarações ou poesia. Só um nome. E fiquei repetindo sua voz, as palavras voando. No dicionário faltaram significados. Te esquecerei, apagarei sua pele e os olhos. Mas um gesto ainda me assalta. Viverei de rascunhos jogados fora.
#162 Lejos
“Estamos lejos porque el mundo sigue girando y nosotros también, pero en direcciones y sentidos distintos. Vos rotas sobre tu mismo eje, mientras yo, me traslado alrededor de gentes, lugares e historias desconocidas.
No se trata de que un movimiento sea más o menos interesante que el otro, tampoco está en juego si es más o menos heroico. El tema es que ahora estamos lejos y viajando por las mismas rutas perpendiculares que, alguna vez, se cruzaron. Es la mejor definición de ‘lejos’ que estos dos ojos dormidos pueden regalarte.”
Rascunhei tanta coisas. Queria te atingir, te tirar desse absurdo que é a paz. Mas só guardam duas palavras que repito sempre: sou metade. E há um oceano para completar.
#161 Foolin’
No trânsito, numa selva absurda, concretos que se atropelam. Dentes podres em janelas tortas. Catarse de gente que não sabe pra onde explodir. Fôssemos sérios, mergulharíamos na urgência irresístivel do abismo, mas somos caos auto organizados. Dia temos nomes, próprios à noite, quando não nos encontramos. Rio. Porque o segredo é a leveza. Como você não cansa de repetir e eu de te citar. O que se repete no ciclo, um circo. Vestidos de sonhos.

