/ crônicas
Thursday, November 12
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#127 Do Contra


posted 1 month ago



Eu vi um homem que pra trás andava. Minto, o vento é que andava pra trás. Contra. E contra o vento o homem não andava. Estancado, sua mulher o empurrava. Ele se quedava. Ela dizia que ele andasse, que olhavam, mas ele ficava com a bengala. Contra o vento não, é contra deus. Se ele manda o vento ficar, eu fico. Ela apertava suas mãos contra as costas do seu homem, e o corpo todo se jogando pra trás. Eu atravessei a rua e quis acalmar. Mas era teatro e eu tinha que ficar, não sabia a língua daquilo tudo. Quis muito, mas assim não é. A mulher queria e eu fechei os olhos e as mãos porque tinha muita pena. Mas eu entendia o homem, seu chapéu torto, suas mãos gastas, seu olhar perdido. Eu enxerguei o homem que achava errado ir contra a natureza que lhe mandava voltar. Dai me fui. Pras coisas pequenas e minhas que são as que eu entendo mais. Aquilo não. Aquilo não existia em sua grandeza.

Tuesday, September 22
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#110 Ode ao Mundo


posted 2 months ago

Quero te encontrar em algum lugar do mundo. De novo em Seoul, ao som de um reggaeton sulamericano, com um abraco porteño. Posso aprender snowboard no seus alpes suicos ou quem sabe te escrevo um poema em alemao. Porque nao? Como em outro por do sol, a gente se encontra em algum ponto de outro continente, em esperanto, encantados. Hasta luego.

Sunday, August 02
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#94 Non Spedite II


posted 4 months ago


Foi meu pai quem me ensinou a tomar gosto pelos ônibus de caminhos longos. Esses que dão voltas para pegar mais passageiros e evitar o congestionamento das grandes avenidas. Neles os motoristas são bons. Os cobradores não tem pressa, a gente não tem pressa. Meu pai pegava os de nome exótico, como se a gente de lá tivesse uma cara outra. Lausane, Peruche, Piqueri.

A gente daqui roda e roda num interminável caminho de ruas esgotadas. Em ondas, percorremos a cidade. Enormes braços que não se perdem, vagarosos como um velho em suas passadas. Francisco talvez. O mundo de repente anda quadrado feito cinema. As árvores choram, os muros se batem e eu decoro uma música silenciosa. A velha ronca ao meu lado. Esparramada no banco, esquecida de si. O ponto final é sempre um lugar longe. Uma margem que não se enxerga e se sonha. Com ele ainda sonho.

Friday, July 24
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#90 N'água


posted 4 months ago



Ela se esquece pelos cantos do seu apartamento. O pinga-pinga na pia, a água fervendo na chaleira, a porta aberta da geladeira. Fica tudo pelo caminho, inacabado. Passeia de táxi pela cidade com medo de se perder em avenidas. Um dia esquecerá seu corpo n’alguma esquina e ali vai ficar.  Como uma dessas estátuas vivas muito assustadoras, douradas e selvagens. Pegará um resfriado pois terá esquecido sua blusa, como o guarda-chuva que ficou no bar. Vai se desfazendo. No final, restarão apenas seus olhos, boiando sob o céu.

Thursday, July 02
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#85 So High


posted 5 months ago




Tinha pena dos seus cabelos oleosos, da sua cara oleosa, daqueles dedos… Oleosos também. Tinha pena daquele fio seboso que insistia em cair em sua testa enquanto fritava as coxinhas naquele boteco sujo. Seis da manhã e já aquele cheiro de gordura a absorver toda a esquina. Ela perdia suas manhãs imersas naquela liquidez podre. Dava-me pena vê-la no meio daquela violência. Porque sempre achava uma violência acordar sem se dar conta. Uma violência ver seus olhos se apagando no meio daquela sujeira. Ela se afogava naquele porto.

Eu pensava na minha vida e sentia uma raiva que não cabia no meu corpo. Eu tinha escolha.
E não podia me perdoar por isso…

Sunday, March 08
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#53 Dancing in The Dark


posted 9 months ago



Maria reserva suas manhãs de sábado e domingo para ir à missa e todas as tardes para sua oração. Pergunto-me o que tanto fala com Deus. Ou o que tanto espera ouvir Dele. Maria é teimosa. Tem as mãos magras que junta em um gesto solitário durante seu monólogo diário. E assume ares assustadores quando fecha os olhos sob a luz de uma vela. Sussurra preces e quase balança o corpo no que chama de higiene espiritual. Quando abre os olhos, parece não reconhecer as paredes amareladas que a rodeiam.
Que Deus a abrençoe.

Sunday, January 04
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#023 Pequenas Memórias


posted 11 months ago

Meu décimo aniversário ocorreu na mesma semana da morte de meu avô paterno. Não fui ao enterro, tampouco lembro de sua morte. Apenas recordo que não houve festa e meus pais me compensavam com um bolo todo decorado e umas poucas bexigas coloridas. Do vô, só guardava o cheiro de uísque e as gelatinas industrializadas, importadas da América, que me presenteava aos domingos. Nunca soube como demonstrar afeto.

Daquele dia, lembro apenas do bolo de aniversário redondo, com uma casa de chocolate em cima. Parecia com a da história de João e Maria, em menor escala, mas com igual elevado teor de açúcar. Tinha também um jardim de chocolate, com flores de confeito em volta. Uma graça. Eu tinha dez anos e aquele bolo representava tudo o que queria no mundo.

Meu pai me dava meio-sorrisos e eu não me envergonhava de recebê-los com risadas completas. Fui uma cínica feliz desde a infância.

“O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.”

Saturday, December 20
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#017 Floating in SPace


posted 12 months ago

“Sonho é destino.”

Procuro em sonhos, versos, lagos. Busco moinhos. Minha fome se esgota em esconderijos, onde guardo suas migalhas. Queria minha dependência. Meus grandes heróis fragmentam-se em estilhaços, perdem-se em lugares tristes, ônibus lotados.

Rosângela agora se impacienta entre minhas unhas e cutículas, suja de esmalte. A manicure anda amarga e eu sinto muita pena. Compaixão que falta a Tereza, que largou o marido de ossos fracos. Ele agora vive em esquintas, esperando, esperando… Mais um sábado no salão da dona Aiko. Um cubículo em que se acorrentam mulheres quarentonas, tentando maquiar o tempo que não atrasa. Falta tinta às paredes. Não, acho que faltam sonhos. E esses já se cansaram.

Estou sentimental.

Friday, December 19
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#016 The shadow of the wind


posted 12 months ago

“E como vai seu sobrinho? Dever estar bonito, mestiço.”

Dissera aquilo não sem um tom de maldade na voz, enquanto segurava a minha mão, em um aperto que fingia afeto. Tinha os dedos gelados. Temia que aquelas mãos sugassem minha alma, ou roubassem o pouco calor que me restava naquele salão congelado de olhares.

Ela segurava meus dedos, e eu a minha alma, para que não fosse roubada.