/ divagações
Friday, October 15
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#188 Quinze


posted 1 year ago

Era domingo. E o céu não se decidia se chovia ou se apenas cobria o dia de nuvens. Usei o mapa da cidade para me sentar nas escadas. O prédio era bonito, mas o chão estava molhado e sujo. E eu não pretendia conhecer as ruas daquele mapa, aquela cidade me dava enjôo. O mapa poderia ficar ali, todas as coisas poderiam ficar suspensas junto às nuvens, como tinham ficado há tantos anos atrás. As pessoas voltavam da missa, em pares e famílias, cenas de comercial. Eu me sentia num filme, mas quando se é o personagem principal, a emoção nunca é a mesma. Na espera, as cores somem por muitos instantes. A realidade é desbotada. Existem apenas os outros que passam como fantasmas e não te olham. Ou sou eu a que nunca está aqui. Quando acho que é hora, aperto a campanha uma última vez, quase esperando que ninguém atenda. Quase querendo que a voz permaneça na garganta, que a porta se mantenha fechada, que eu me mantenha aqui dentro. Como as coisas que a gente vai amontoando na mesa. Ingressos de cinema, livros de dez reais, cadernos que se compra pela capa. E tem dias que a gente se cansa, e vai jogando tudo na gaveta. Até a gaveta não respirar mais, e não deixar espaço pra mais nada. Já era hora. A voz atendeu, a aporta abriu, e eu saí.

Sunday, August 08
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#187 Lost in Translation


posted 1 year ago



Doze horas pelo oceano, chego cinco horas na frente. No aeroporto de Frankfurt, o alemão é gritado pelos auto-falantes. Nomes, voôs, esperas que se embaralham com o meus pensamentos esparsos. O aeroporto de Frankfurt é um dos maiores do mundo e só o que se sente é a pequenez de ser. Cabeças loiras passeiam de lá pra cá. Caminho por elas, despedidas e declarações de amor condicional. Discordo de tudo. Quero o que é eterno, indefinitivo. Unendlich.

Sunday, June 06
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#174 Feet First


posted 1 year ago



Atar os cintos, posição vertical, verificar pertences. Em caso de urgência, não entre em pânico. Azul azul azul. Quase perco a visão. Onde os pássaros não alcançam, onde perdem as asas e o gosto de céu. Quando nascem as nuvens. A janela caminha para o sol e desmancha em violeta. Escorrego no horizonte. Longe. Nos aproximamos. Barulho, tristeza e só, em aterrissagem segura. Voltamos. Desatar cintos, ligar equipamentos, voltamos. De novo.

Saturday, May 22
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#171 Resposta


posted 2 years ago

~ Que barulho é esse que eu sinto nas coisas e dentro de mim? ~

Eu te procuro nos rostos, nos colos, nos muros com palavrões. Com amor. Eu te busco nos gestos, na gente que passa, naquilo que se debate. Em todos os mapas, nos nomes antigos. Jogo a isca num poço profundo, mas só há silêncio, um negativo. E eu quero escutar seu grito, socorro, um abrigo. Por favor. No escuro que se estende, derrotado o dia em cada dia. Mas não te acho, nem mercúrio, só procuro. Eu não me curo, te expulso como praga. Me apaga. E me contamina como essa poesia, que não se cala nunca. Um absurdo.

Saturday, May 15
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#170 Laughing Heart


posted 2 years ago


Pintava as unhas de céu, porque não podia segurar as nuvens, vertia chuvas. Corria pelos ponteiros do relógio, fugindo entre as horas. Era uma mentira que caminhava, que sorria, que dava bom-dia as flores, mas calava debaixo do sol. E algum dia seria engolida pelo horizonte. Viraria endorfina.

Sunday, May 02
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#167 In Definitivo


posted 2 years ago



Definição. Definir, dar formas, um fim. Definitivo não, infinitamente. Infinalizado. Defino assim: i’m fine.

Tuesday, April 27
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#166 Prenderte Fuego


posted 2 years ago

Pisco no vazio das quatro da manhã, acordo quando acaba a luz, todos dormem e ninguém sabe, mas a garganta pede água e descubro a ausência, não há energia, como se tivesse fugido com o último som da TV, sozinha partiu, dormiu com o barulho da lua crescente sorrindo das mãos que não tem outras para segurar, apenas o frio controle remoto, controlados seus sonhos, dorme no eco, na ilusão de que alguém chama, sabe o nome e espera, mas não grita, o futuro são cravos ressecados numa lapela de granito, sem dentes amarelos, nem a isso terá direito, nem a chuva, padecerá num corredor com luz de supermercado, numa gaveta, como meias que ninguém se dá ao trabalho de costurar, eu vou te deixar… eu vou te apagar.

Sunday, April 25
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#165 Les eaux de Mars


posted 2 years ago



São as águas de Marte, promessa de vida em nova estação. Vou saber do que sei, e o que eu não sei, o que eu não sei. Deixo pra depois.

I know, with me everything is fine.

Wednesday, April 21
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#164 Sorry


posted 2 years ago

Esqueço todos os dias, progressivamente, até quando as noites revoltam o escuro, continuo apagando. Minha cabeça range, a porta dói. Ela bate uma, duas, vezes até as dez da noite, quando meus olhos fecham sozinhos, sem você ter que pedir. Ele pergunta tudo sem querer responder, não encontrando meu olhar que corre pra rua, perde sentidos. Faltam cinco. Sem ouvir cheirar sentir e escutar suas palavras. Deixo cair nessa amnésia branca, um eco infinito, desenhado pela sua poesia desafinada. Não viro chave, não consigo passar pela janela, traduzir suas mãos, decorar seus gestos. Seu nome é adjetivo, sou verbo, esperar, esperar. Pisque. Caia. Grite um grito quente, espinhoso. Não recue sua voz dentro de mim. Deixe que eu amarre seu cadarço, penteie seus cabelos, te ponha na cama. Quero dormir com seu sorriso. De madrugada só.

Saturday, March 20
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#160 Splendid Suns


posted 2 years ago



Longe. É o quanto a minha garganta alcança, até onde os meus pés conseguem fugir e a minha cabeça ficar - martelando uma música interminável que toca no rádio, que balbucia palavras ao léu, como essas, como outras, como sonhos dos quais eu me lembro durante o dia olhando para você sem saber, se é de dia já, ou se a suspeita é doença, tênue linha entre o que temos e o que seríamos se eu não fosse tola e acreditasse no que sussurram suas flores - brancas, mentirosas, tristes - estou toda dormente e já passam das 10 da noite, o som ainda não acabou, o telefone está à espera e eu ainda cogito. Outono.