/ lembranças
#64 Suite for Orchestra
Aos 12 anos, vi uma foto do templo da Sagrada Família, do Gaudí. Foi amor à primeira vista. Por sua causa, pensei em fazer arquitetura e viver dos restos de suas obras. Aos 15, já sabia que era apenas um amor platônico. A física e a matemática me separaram dos sonhos de construir plantas e busquei outro futuro. Não podia viver de projetos.
Dez anos depois, meus devaneios me levaram a Barcelona, a Gaudí. A nostalgia de um primeiro amor, nunca me fez esquecer dos contornos daquele templo e sabia que um dia teria que tocá-lo com meus próprios olhos. Abracei suas torres, celebrei suas colunas e chorei num céu de diamantes. Um azul inesquecível como o primeiro beijo.
Como um primeiro céu.
#51 Naked

Sinto silêncio e ondas. Uma vontade enorme de engolir o mundo e por ele ser engolida, de novo e de novo. Comeram meus sentidos. Restou apenas esse falso ondular, esse barulho de sede, esse mar. Um sufôco de viver até onde o ar suporta.
Rancores que morrem no mar…
Ilustra de dabliuponto.
#049 Amor de Carnaval

Amor de carnaval não sobe a serra. Apenas se guarda, como um souvenir de dias bonitos. Às vezes se esquece,empoeirado com outras lembranças, até vir uma brisa trazendo saudade. Saudadexando.Uma canção que guardo a melodia, um abraço que eu ainda respiro. Que fica…
S[L]P.
#038 IM Perfect
Eu tinha 10 anos e ainda não sabia o que significava “ir até embaixo” com um garoto. Música para mim eram os ruídos de rocks antigos que saíam da vitrola do meu pai. Mas eu tinha uma irmã mais velha, e naquela época, nosso único elo era o som da gaita de uma garota de cabelo comprido e trejeitos quase exquizofrênicos.
Aos poucos, as letras foram fazendo sentido. E eu parei de levar Alanis ao pé da letra. Minha vida foi se preenchendo de duplos sentidos, indiretas e frases ocas. Música virou refúgio. Religião. Eu queria entender o mundo, e ela abriu esse mundo de sinceridades e de humanidades.
14 anos depois, ainda entendo pouco disso e esqueci do pouco que havia decorado. Como Alanis, assumi minha imperfeição. Mas celebro a isso e canto sem voz.
Being a good girl…
#023 Pequenas Memórias
Meu décimo aniversário ocorreu na mesma semana da morte de meu avô paterno. Não fui ao enterro, tampouco lembro de sua morte. Apenas recordo que não houve festa e meus pais me compensavam com um bolo todo decorado e umas poucas bexigas coloridas. Do vô, só guardava o cheiro de uísque e as gelatinas industrializadas, importadas da América, que me presenteava aos domingos. Nunca soube como demonstrar afeto.
Daquele dia, lembro apenas do bolo de aniversário redondo, com uma casa de chocolate em cima. Parecia com a da história de João e Maria, em menor escala, mas com igual elevado teor de açúcar. Tinha também um jardim de chocolate, com flores de confeito em volta. Uma graça. Eu tinha dez anos e aquele bolo representava tudo o que queria no mundo.
Meu pai me dava meio-sorrisos e eu não me envergonhava de recebê-los com risadas completas. Fui uma cínica feliz desde a infância.
“O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.”