/ sentimentalidades
#198 Me, you and everyone we know

Há quem entre no mar apenas com a ponta dos pés e depois retorne a areia. E há quem mergulhe fundo e nade em direção a uma pequenina ilha no horizonte. Eu deixo a água chegar na cintura e fico boiando de barriga pra cima apontando para o sol. Às vezes cantarolo, outras desvio das ondas. Mas me deixo ficar no meio do caminho.
Na minha lista de coisas-a-fazer estão nessa ordem: marcar oftamologista, dermatologista, ir a costureira, voltar a escrever, exercitar-me, ler mais um dostoiésvki. E como não consegui tirar a escrita das coisas urgentes e necessárias, aqui estou, contando do meu comportamento na praia.
E isso me faz lembrar da canga colorida que deixei naquela varanda. Do fone de ouvido que perdi, do bilhete de ônibus que deixei passar. No meu museu de coisas esquecidas, também ficam todas as palavras que esqueci de te dizer no jantar de ontem. Por isso continuo a imprimir aqui, em cores monocromáticas, esperando que um dia te toque. Remember it well.
#191 Travel & Trunks
Gente casando, engravidando, aprendendo francês e mudando pra Suécia. Gente que empurra o mundo e faz ele rodar com força ainda maior. Gente que me dá saudade.
Por aqui tudo correndo também, às vezes chove e fica sem cor, mas tudo bem. O céu não vai esperar pela gente. Ontem caminhei pela nossa rua sob uma garoa fina. Estava cinza e sem carros, melancolicamente bonita. Assisti um filme argentino, tomei café amargo, lembrei de você.
Senti com toda a força do mundo os vinte e cinco anos que todos insistem em dizer que são tão poucos. O que falta não me basta. Fiquemos mais, é cedo ainda.
#178 Before the Sunset
Antes que o dia acabe, rabisque mais uma promessa. Antes que a minha memória se prenda, perca-se e apague o seu rosto. Eu vou te deixar num rastro. Vou deixar que chova em mim e faça sol e eu lembre pra te contar depois. Pra compartilhar na segunda pessoa, pra conjugar no plural. Será que as gotas esgotam em sessenta dias? Será que os dias se enchem de você? Antes que o sol escureça, eu te escrevo. Antes que o sol se apague, eu te sonho. With love.
#168 Viajo Porque Preciso
A câmera fotográfica se mantem suspensa, o filme fechado, mal saídos da caixa. E mais pilhas de planos, rabiscos. Tantos. Coisas do mundo todo sobre a minha mesa e eu não sei porque te escrevo. Queria te falar do céu da cidade, como ele muda todos os dias e renova meu estoque de nomes. Azul, anil, branco, nublado, aerado, em erosão… Substantivos preferidos. Os outros nomes eu tendo a apagar diariamente. As pessoas perdem sua cor, suas formas, você não. E é desse lado que eu fico. Renovando a minha paixão pelas paisagens, em qualquer quinhão do mundo. No mundo.
#166 Prenderte Fuego
Pisco no vazio das quatro da manhã, acordo quando acaba a luz, todos dormem e ninguém sabe, mas a garganta pede água e descubro a ausência, não há energia, como se tivesse fugido com o último som da TV, sozinha partiu, dormiu com o barulho da lua crescente sorrindo das mãos que não tem outras para segurar, apenas o frio controle remoto, controlados seus sonhos, dorme no eco, na ilusão de que alguém chama, sabe o nome e espera, mas não grita, o futuro são cravos ressecados numa lapela de granito, sem dentes amarelos, nem a isso terá direito, nem a chuva, padecerá num corredor com luz de supermercado, numa gaveta, como meias que ninguém se dá ao trabalho de costurar, eu vou te deixar… eu vou te apagar.
#164 Sorry
Esqueço todos os dias, progressivamente, até quando as noites revoltam o escuro, continuo apagando. Minha cabeça range, a porta dói. Ela bate uma, duas, vezes até as dez da noite, quando meus olhos fecham sozinhos, sem você ter que pedir. Ele pergunta tudo sem querer responder, não encontrando meu olhar que corre pra rua, perde sentidos. Faltam cinco. Sem ouvir cheirar sentir e escutar suas palavras. Deixo cair nessa amnésia branca, um eco infinito, desenhado pela sua poesia desafinada. Não viro chave, não consigo passar pela janela, traduzir suas mãos, decorar seus gestos. Seu nome é adjetivo, sou verbo, esperar, esperar. Pisque. Caia. Grite um grito quente, espinhoso. Não recue sua voz dentro de mim. Deixe que eu amarre seu cadarço, penteie seus cabelos, te ponha na cama. Quero dormir com seu sorriso. De madrugada só.
#159 Do que ficou
Ele fala comigo como se eu já soubesse tudo. Cartas, longos silêncios, desistências. Coisas que a gente faz todo dia, esquecer-se como o jornal do dia, o relógio de pulso sobre a mesa. Mas eu não sei nada. Eu finjo. Falsifico poesia e não sinto pena da rosa que seca sobre a mesa - solitária, em trajes múltiplos quase fúnebres. Mas ele ainda acredita e por isso joga tudo em mim, palavras, cansaço. Porque eu engano uma força que não existe. E ele acredita nesse gesto como uma carta sem destino, num último fôlego. Por um instante eu quase digo que é tudo uma farsa, tudo se quebra, os jardins não se suspedem. É quase insuportável. Dizendo coisas sem saber porquê, já passam de tantas horas e eu fico. Noites a fio.
#156 Tudo Se Ilumina

Agora que eu te vejo, que os olhos se mantem abertos e que mesmo que eu tenha medo, eu não os feche mesmo quando você se abre em segredos, como se nada nos ouvisse, mas você ouve e eu receio que o vento te parta, mas você fica ainda, o mês não acabou, os sonhos se constrem, meu ônibus não partiu e tudo sustenta como a luz do dia, como a flor da nossa casa que a gente não rega e a janela que a gente não limpa, mesmo que eu muito a ame.
Ou talvez por isso.
#137 Yours to Keep
~Won’t you stay near. So close we played it as if we cared~
Fiquei com seus restos grudados em mim. Do amargo e do doce, ficou o afago. O cheiro das estrelas, mãos e estragos. Deixo meu espaço. Uma folha em branco, um desenho de um verso. Espalhada em sonhos. Não te acordo.

